Prefácio

Alguns temas são especialmente polêmicos por aqui: transgênicos, veganismo, energia nuclear… e é sobre este último que, criando mais coragem do que talvez devesse, tentarei debater neste post. Pretendo levantar pontos importantes com ênfase nas falácias da energia nuclear. Segurança, lixo atômico, contaminação, o que é verdade e o que tratamos com irracional exagero.

Então, desde já, peço que qualquer comentário seja feito apenas após a leitura completa do texto e dos links (em especial das “leituras obrigatórias” indicadas mais abaixo), que seja racional e coerente. Somos, nem precisaria dizer, a favor da “energia limpa”, mas se você quer defender uma posição é fundamental conhecer todos os argumentos a favor e contra, mas conhecer a fundo, não apenas o que se ouviu rapidamente no programa-de-TV-da-tarde-de-ontem. Dito isto, vamos em frente.

 

As opções

A energia solar ainda é extremamente ineficiente, aproveitando apenas 20% da energia recebida. Existem estudos para melhorar este fator, mas não se sabe quando chegarão à grande escala. A energia eólica também aparece como ótimo modelo, e alcançou cerca de 3% da matriz mundial, mas igualmente exige maior investimento por Twh gerado, além de afetar o voo de pássaros e morcegos.

Usinas hidroelétricas, muitas vezes tidas como “limpas”, em verdade geram o alagamento de grandes áreas que, além de afetarem fauna e flora, provocam a emissão de grande quantidade de CO2 ao longo de anos por conta da decomposição do material orgânico existente na área alagada. A dependência do regime de chuvas é também um fator a se considerar – basta lembrar dos apagões e racionamento de 2001.

Acima de tudo, nem todo país tem o potencial solar, eólico e hídrico que temos nesta terra brasilis. É por um ou mais desses fatores, aliados à questão econômica, que a queima de carvão e gás responde pela maior parte da geração de energia elétrica do mundo. E, neste contexto, surge a energia nuclear, ocupando pouquíssimo espaço, emitindo apenas vapor de água e usando urânio (que fora a geração de energia tem quase nenhuma utilidade). Mas o uso militar dessa tecnologia criou uma mácula eterna…

 

Herança maldita

A energia nuclear foi criada e infelizmente demonstrada ao mundo da pior maneira possível, com bombas devastadoras caindo sobre Hiroshima e Nagasaki. Nas décadas seguintes o mundo aperfeiçoou o uso da tecnologia para fins pacíficos, em especial na medicina e na geração de energia elétrica.

Ao longo de tantos anos alguns acidentes ocorreram, do caso goiano de Césio 137 (que envolve o uso médico, e não energético) ao famigerado acidente da usina nuclear de Chernobyl. Isso até março de 2011…

 

Fukushima

Após um terremoto de magnitudes épicas seguido de enorme tsunami que tantos estragos e mortes provocaram no Japão, o sistema de refrigeração da usina de Fukushima falhou ao ter seus geradores de reserva inundados pelas águas e, sem eles, o sobreaquecimento vem provocando explosões e vazamentos.

Com este acidente, diga-se de passagem o único em muitos anos, temos de volta toda a discussão sobre a segurança e a escolha de matrizes energéticas “mais limpas”.

 

Repercussão

A cobertura de boa parte da imprensa não parece ajudar a entender o que efetivamente ocorreu, com repórteres preferindo perguntar aos especialistas se o Brasil está preparado para algo similar nas usinas de Angra (uma possibilidade ínfima num país sem terremotos ou tsunamis minimamente similares, que, além disso, utiliza sistemas mais avançados de segurança), do que, como já adiantei, apresentarem as diferenças entre os sistemas usados em Fukushima e os usados no Brasil ou na moderníssima usina em construção na China.

Usinas nucleares de Angra dos Reis

Em diversas partes do mundo governos paralisaram as operações de usinas nucleares ou interromperam a construção de novas unidades para revisarem seus processos. Toda  melhoria em segurança é bem vinda e é em momentos de crise que se apara as arestas. No Brasil, o Greenpeace realizou na última sexta-feira um ato pedindo o fim do uso de energia nuclear no país.

[UPDATE] Nesta quarta-feira (23) a Comissão de Minas e Energia realizará audiência pública para discutir os projetos de construção de usinas nucleares no Brasil e a situação das usinas que já estão em funcionamento (Angra 1 e Angra 2). (valeu pelo link @jorge_paulo_jr)

 

Leituras obrigatórias

Neste ponto precisamos entender mais a fundo o funcionamento das usinas nucleares, o que houve de fato no Japão, quão sério é o problema, se o mesmo pode se repetir pelo mundo e se há usinas à prova de desastres. Porém seria muita pretensão tentar apenas citar trechos dos excelentes artigos que tive contato nos últimos dias, por isso siga com as leituras de:

Sobre a Histeria Nuclear“, no blog Radiação de Fundo de Pedro Almeida (mestrando em engenharia elétrica pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

Quão sério é o problema de radiação no Japão“, no Gizmodo (site de tecnologia que frequentemente trata de assuntos globais e sustentabilidade) + Por que Fukushima não será outro Chernobyl.

E, enfim, “É possível construir uma usina nuclear à prova de desastres?“:

 

E onde chegamos

Concluir em qualquer direção pode ser um perigo enorme, mas acho que fica claro que a energia nuclear é uma opção extremamente razoável em especial aos países onde as opções mais “limpas” (solar, eólica, biomassa, marés, e, na minha opinião não tão limpa, hidroelétrica) tem pouca capacidade natural, ou seja, partiria-se para carvão natural e gás, isto, desde que trabalhem no mínimo em sistemas de segurança da geração 3(+).

É a substituição que fizeram muitos países e seria utópico pedir o desligamento das mais de 100 usinas nucleares ativas pois geram parte fundamental da energia usada pela população. Ou se luta pela melhoria das usinas em funcionamento, ou se dá um passo atrás voltando a queimar carvão e gás.

Certo é que, por outro lado, o foco tem se virado (e assim esperamos que continue) para a melhoria dos sistemas solares e eólicos que ao atingirem altos índices de eficiência substituirão com maestria toda a matriz atual, inclusive hidroelétrica, e nos levarão a um nível de poluição e resíduos mínimos sonhado por tantas gerações.

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 é o criador do eco4planet, formado em Administração de Empresas pela USP, desenvolvedor e gamer. Otimista nato, calmo por natureza, acredita que informação pode mudar o mundo e que todo pequeno gesto vale a pena. Posta também no Twitter e Facebook.
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