Estudo sugere que os oceanos da Terra podem ter sido verdes há bilhões de anos. A descoberta ajuda a explicar como a vida transformou a aparência do planeta.
Quando observamos uma fotografia da Terra feita do espaço, uma característica chama imediatamente a atenção: o azul dos oceanos.
Afinal, a água cobre aproximadamente 71% da superfície terrestre e ajuda a explicar por que nosso planeta recebeu o apelido de Planeta Azul.
Entretanto, essa aparência pode não ter sido a mesma ao longo de toda a história da Terra.
Uma pesquisa publicada em fevereiro de 2025 na revista científica Nature Ecology & Evolution apresentou uma hipótese fascinante: os oceanos primitivos podem ter sido predominantemente verdes durante parte do Arqueano, período que antecedeu a grande transformação da atmosfera terrestre pelo oxigênio.
A explicação envolve mudanças químicas na água, a presença de ferro e a evolução de microrganismos capazes de realizar fotossíntese.
Além disso, cientistas consideram que ambientes aquáticos podem apresentar outras cores, como vermelho, marrom e até roxo, dependendo das substâncias e dos organismos presentes.
Mas o que realmente determina a cor do oceano? E por que essas mudanças são importantes para compreender a evolução da vida?
Por que os oceanos são azuis atualmente?

A cor azul dos oceanos resulta principalmente da interação entre a luz solar e a água.
A luz branca contém diferentes comprimentos de onda, que correspondem às cores do espectro visível.
Quando a luz penetra na água, suas componentes são absorvidas e espalhadas de maneiras diferentes.
A água absorve com maior intensidade vários comprimentos de onda associados às cores vermelha e amarela, enquanto a luz azul consegue penetrar mais profundamente e contribuir para a coloração observada.
Por isso, grandes volumes de água limpa frequentemente apresentam tons azulados.
Entretanto, a cor também depende de outros fatores.
Entre eles estão a quantidade de sedimentos, a matéria orgânica dissolvida, a profundidade e a presença de organismos microscópicos.
Uma região com grande concentração de fitoplâncton, por exemplo, pode apresentar tons esverdeados.
Já águas com sedimentos em suspensão podem adquirir aparência amarronzada.
Portanto, o azul não representa uma característica imutável dos oceanos.
Como eram os oceanos há 2,5 bilhões de anos?
Para compreender a hipótese dos oceanos verdes, precisamos voltar aproximadamente 2,5 bilhões de anos.
Naquela época, a Terra apresentava condições muito diferentes das atuais.
A atmosfera possuía concentrações extremamente baixas de oxigênio livre. Além disso, a composição química dos oceanos favorecia a presença de grandes quantidades de ferro dissolvido.
Esse elemento chegava às águas por diferentes processos geológicos, incluindo a atividade vulcânica e a interação entre rochas e ambientes aquáticos.
Sem a presença abundante de oxigênio, parte desse ferro permanecia dissolvida na forma ferrosa, conhecida como Fe(II).
Entretanto, o desenvolvimento de organismos capazes de produzir oxigênio começou a modificar esse cenário.
As cianobactérias, microrganismos que realizam fotossíntese oxigênica, desempenharam um papel fundamental nessa transformação.
Ao utilizar energia solar para produzir matéria orgânica, elas liberavam oxigênio.
Consequentemente, esse oxigênio podia reagir com o ferro dissolvido, formando compostos de ferro oxidado, chamados de Fe(III).
Essas transformações químicas alteraram a maneira como a luz atravessava a água.
O estudo científico que propôs a hipótese dos oceanos verdes
Uma equipe de pesquisadores de universidades japonesas investigou a relação entre a composição química dos oceanos primitivos e a evolução dos sistemas de fotossíntese.
O trabalho, intitulado Archaean green-light environments drove the evolution of cyanobacteria’s light-harvesting system, apareceu na revista Nature Ecology & Evolution, em 18 de fevereiro de 2025.
Os cientistas utilizaram modelos computacionais para reconstruir como a luz solar poderia atravessar águas ricas em compostos de ferro oxidado.
Os resultados indicaram que essas condições favoreceriam a transmissão de luz na faixa verde do espectro.
Assim, determinados ambientes oceânicos poderiam apresentar uma luminosidade subaquática predominantemente esverdeada.
Além disso, a pesquisa procurou explicar uma característica evolutiva das cianobactérias: sua capacidade de aproveitar comprimentos de onda que a clorofila convencional não absorve tão eficientemente.
Por que as cianobactérias utilizam diferentes pigmentos?

A clorofila desempenha um papel central na fotossíntese.
Entretanto, muitas cianobactérias também possuem estruturas especializadas chamadas ficobilissomos.
Essas estruturas contêm proteínas e pigmentos que capturam luz em diferentes faixas do espectro.
Entre eles estão as ficobilinas, capazes de ampliar o aproveitamento da energia luminosa disponível.
A hipótese apresentada pelos pesquisadores sugere que os ancestrais desses organismos desenvolveram adaptações importantes em ambientes onde a luz verde predominava.
Dessa forma, a evolução dos pigmentos fotossintéticos pode ter ocorrido em interação com as transformações químicas dos oceanos.
A descoberta reforça uma ideia importante: os seres vivos não apenas se adaptam ao ambiente. Ao longo de milhões de anos, também podem modificar suas características.
Uma ilha japonesa ajuda a compreender a hipótese
Para investigar condições semelhantes às dos mares antigos, os pesquisadores estudaram águas próximas à ilha vulcânica de Iwo, no arquipélago de Satsunan, no Japão.
A região apresenta águas esverdeadas devido à presença de compostos associados ao ferro e à atividade geológica local.
Além disso, abriga comunidades de cianobactérias adaptadas a essas condições.
A equipe analisou a transmissão da luz na água, a composição química e os microrganismos presentes.
Segundo a Universidade de Kyoto, esses resultados ajudaram a sustentar a hipótese de que ambientes semelhantes poderiam ter existido durante o Arqueano.
Entretanto, uma região moderna com água verde não funciona como uma reprodução perfeita dos oceanos primitivos.
Ela oferece uma oportunidade de observar processos químicos e biológicos relevantes para a investigação.
O Grande Evento de Oxigenação transformou o planeta
Uma das maiores mudanças ambientais da história terrestre ocorreu há aproximadamente 2,4 bilhões de anos.
Conhecido como Grande Evento de Oxigenação, esse processo marcou o aumento duradouro do oxigênio disponível na atmosfera.
Antes dessa transformação, a vida existia principalmente na forma de microrganismos adaptados a condições muito diferentes das atuais.
Entretanto, o crescimento da fotossíntese oxigênica alterou progressivamente a química dos oceanos e da atmosfera.
O oxigênio reagiu com substâncias presentes na água e nas rochas.
Entre elas estava o ferro dissolvido, que passou a formar minerais oxidados.
Parte dessa história permanece registrada nas formações ferríferas bandadas, depósitos geológicos antigos que preservam evidências de transformações químicas dos mares.
Ao longo do tempo, essas mudanças contribuíram para criar condições que favoreceram a evolução de organismos capazes de utilizar oxigênio em seu metabolismo.
Consequentemente, a história da cor dos oceanos também se conecta à evolução da biodiversidade.
Os oceanos poderiam ser roxos, vermelhos ou marrons?
Embora o estudo japonês investigue principalmente a hipótese dos oceanos verdes, outros processos podem produzir diferentes cores na água.
A coloração depende tanto da composição química quanto dos organismos presentes.
| Cor | Possível explicação |
|---|---|
| Azul | Propriedades ópticas da água e baixa presença de partículas |
| Verde | Pigmentos fotossintéticos, partículas e determinadas condições químicas |
| Vermelho | Proliferações de microrganismos pigmentados ou sedimentos ricos em ferro |
| Roxo | Predominância de organismos com pigmentos púrpura em condições específicas |
| Marrom | Sedimentos, matéria orgânica dissolvida ou proliferações biológicas |
Entretanto, é importante distinguir fenômenos locais de mudanças que afetariam grandes regiões oceânicas.
A existência de águas vermelhas ou roxas em determinados ambientes não significa que todos os oceanos possam adquirir essas cores simultaneamente.
Além disso, cada possibilidade depende de condições químicas, ambientais e biológicas específicas.
Oceanos roxos seriam possíveis?
Algumas bactérias utilizam pigmentos capazes de conferir tonalidades púrpuras aos ambientes onde vivem.
Entre elas estão determinadas bactérias fotossintéticas que não produzem oxigênio durante seu metabolismo.
Esses microrganismos podem prosperar em ambientes aquáticos com pouco oxigênio e condições químicas adequadas.
Portanto, águas com grandes concentrações desses organismos podem apresentar coloração arroxeada.
Entretanto, a ideia de oceanos inteiros roxos permanece especulativa.
Não existe comprovação de que o planeta necessariamente passará por essa transformação.
Por que alguns mares ficam vermelhos?
Certas proliferações de microalgas e outros organismos podem modificar a aparência das águas, produzindo tons avermelhados ou marrons.
Popularmente, alguns desses episódios recebem o nome de marés vermelhas.
Entretanto, nem toda proliferação de algas apresenta coloração vermelha, e nem todas produzem toxinas.
Algumas espécies podem liberar substâncias prejudiciais à fauna marinha e à saúde humana.
Por isso, pesquisadores monitoram esses fenômenos e procuram compreender sua relação com nutrientes, temperatura e circulação das águas.
Os oceanos estão mudando de cor atualmente?
Sim. Instrumentos científicos identificaram alterações na cor de extensas regiões oceânicas nas últimas décadas.
Em 2023, uma pesquisa baseada em dados de satélite mostrou mudanças significativas de cor em aproximadamente 56% da superfície oceânica analisada ao longo de duas décadas.
A NASA apresentou esses resultados como evidências de transformações nas propriedades ópticas dos mares e, possivelmente, em seus ecossistemas.
Entretanto, essas mudanças não significam que os oceanos estejam deixando de ser azuis de maneira uniforme.
As alterações podem ser sutis e variar conforme a região.
Além disso, a concentração de fitoplâncton, os nutrientes e as condições físicas da água influenciam os resultados.
O que as pesquisas de 2026 acrescentaram?
Em maio de 2026, um estudo publicado na revista Geophysical Research Letters investigou a hipótese de que regiões oceânicas ricas em clorofila estariam ficando progressivamente mais verdes, enquanto áreas com pouca clorofila ficariam mais azuis.
Os pesquisadores não encontraram evidências fortes de que esse padrão se repetisse consistentemente em todo o planeta.
Entretanto, identificaram uma relação mais robusta entre o aquecimento da superfície do mar e a redução das concentrações de clorofila.
Esses resultados são importantes porque mostram que as transformações biológicas dos oceanos não seguem necessariamente um único padrão global.
Portanto, compreender as mudanças de cor exige analisar diferentes regiões, períodos e condições ambientais.
Satélites da NASA conseguem identificar mudanças invisíveis aos nossos olhos
A observação da cor dos oceanos tornou-se uma ferramenta importante para estudar a biodiversidade marinha.
Lançado em fevereiro de 2024, o satélite PACE, da NASA, utiliza instrumentos capazes de analisar centenas de faixas do espectro eletromagnético.
Essa tecnologia permite identificar diferenças sutis na luz refletida pela superfície do mar.
Consequentemente, cientistas conseguem investigar a distribuição de diferentes comunidades de fitoplâncton.
Esses organismos microscópicos desempenham funções fundamentais nos ecossistemas aquáticos.
Além de sustentar grande parte das cadeias alimentares marinhas, participam da produção de oxigênio e do ciclo global do carbono.
Em 2026, a NASA continuou utilizando dados do PACE para acompanhar mudanças no fitoplâncton relacionadas às condições oceânicas.
O monitoramento ajuda pesquisadores a identificar tendências ambientais e compreender como o aquecimento global afeta a vida marinha.
A cor dos oceanos pode ajudar a descobrir vida em outros planetas?
A hipótese dos oceanos verdes também apresenta implicações interessantes para a astrobiologia.
Ao observar planetas distantes, cientistas procuram identificar características físicas e químicas que possam indicar condições favoráveis à vida.
Tradicionalmente, a busca envolve aspectos como presença de água líquida, composição atmosférica e temperatura.
Entretanto, a pesquisa sobre os oceanos primitivos sugere que a cor predominante de uma superfície aquática também pode fornecer informações.
Um planeta com mares esverdeados, por exemplo, poderia apresentar condições químicas diferentes das observadas atualmente na Terra.
Além disso, pigmentos biológicos poderiam influenciar a assinatura espectral detectada por telescópios.
Entretanto, encontrar um planeta com aparência verde não seria suficiente para comprovar a existência de vida.
Minerais, sedimentos e diferentes processos físicos também podem produzir colorações semelhantes.
Por isso, a identificação de possíveis sinais biológicos depende da combinação de diferentes evidências.
O que a história dos oceanos revela sobre a evolução da Terra?
A possibilidade de oceanos verdes há bilhões de anos mostra como nosso planeta passou por transformações profundas.
A composição da atmosfera mudou. A química da água se modificou. E os organismos vivos participaram ativamente desses processos.
Além disso, a evolução de microrganismos fotossintéticos contribuiu para alterar as condições ambientais e ampliar as possibilidades de desenvolvimento da vida.
Essa relação continua relevante atualmente.
A composição das comunidades marinhas influencia processos químicos e ecológicos, enquanto as mudanças climáticas modificam as condições em que esses organismos vivem.
Em uma matéria anterior, o Eco4Planet já mostrou como algas e outros seres marinhos podem reduzir localmente a acidificação dos oceanos.
A pesquisa reforça a importância dos processos biológicos na regulação das condições químicas dos ambientes aquáticos.
Portanto, compreender a história das cores dos mares também significa investigar a relação entre vida, química e clima.
O futuro dos oceanos não depende apenas de sua cor
A ideia de oceanos verdes, vermelhos ou roxos desperta curiosidade porque desafia uma imagem profundamente associada ao planeta Terra.
Entretanto, a principal contribuição científica da pesquisa está em demonstrar como os ambientes naturais e os seres vivos evoluem de maneira interligada.
O estudo de 2025 apresentou uma explicação plausível para a predominância da luz verde em determinados oceanos primitivos.
Já as pesquisas mais recentes mostram que a cor dos mares atuais continua oferecendo informações importantes sobre a biodiversidade e as mudanças ambientais.
Embora não seja possível afirmar que os oceanos inteiros foram verdes ou que se tornarão roxos no futuro, essas hipóteses ajudam a ampliar nosso conhecimento sobre a história terrestre.
O azul dos oceanos pode parecer permanente, mas a história da Terra demonstra que até as características mais familiares do planeta são resultado de bilhões de anos de transformações.
Perguntas frequentes
Os oceanos da Terra já foram verdes?
Um estudo publicado em 2025 sugere que águas oceânicas primitivas podem ter apresentado coloração esverdeada devido à presença de compostos de ferro e às condições de transmissão da luz. Entretanto, a hipótese ainda exige investigação.
Por que os oceanos são azuis?
A água absorve e espalha diferentes componentes da luz solar. Suas propriedades ópticas favorecem a aparência azulada em grandes volumes de água limpa.
O oceano pode ficar roxo?
Determinadas bactérias possuem pigmentos púrpura e podem modificar a coloração de ambientes aquáticos específicos. Entretanto, a transformação global dos oceanos em roxo permanece uma possibilidade especulativa.
O que são cianobactérias?
São microrganismos capazes de realizar fotossíntese. Seus ancestrais desempenharam papel fundamental na oxigenação da atmosfera terrestre.
As mudanças climáticas estão alterando a cor dos oceanos?
Pesquisas com satélites identificaram mudanças na cor de extensas regiões oceânicas. O aquecimento pode modificar as condições que sustentam comunidades de fitoplâncton, embora os efeitos variem entre regiões.
Como os cientistas estudam a cor dos oceanos?
Utilizam satélites, sensores ópticos, análises químicas, amostras de água e modelos computacionais para investigar a luz refletida e absorvida pelos ambientes marinhos.



