Uma startup americana quer transformar o oceano em uma nova fonte de energia para a inteligência artificial. A Panthalassa desenvolve estruturas flutuantes capazes de aproveitar o movimento das ondas para gerar eletricidade, resfriar equipamentos com água do mar e transmitir dados por satélite. A proposta promete reduzir a dependência de redes elétricas terrestres, mas ainda enfrenta desafios tecnológicos e ambientais.
Imagine atravessar o Oceano Pacífico e encontrar uma estrutura metálica gigantesca flutuando no horizonte. Ela não seria um navio, uma plataforma de petróleo ou uma estação científica.
Dentro dela, computadores estariam processando informações para sistemas de inteligência artificial. E a energia necessária para manter tudo funcionando viria do movimento das ondas.
Parece um cenário de ficção científica. Entretanto, uma empresa americana está tentando transformar essa ideia em realidade.
A Panthalassa, sediada em Portland, no estado do Oregon, desenvolve plataformas oceânicas autônomas capazes de produzir eletricidade e utilizá-la diretamente em equipamentos de computação.
Em maio de 2026, a companhia anunciou uma rodada de investimento de US$ 140 milhões liderada pelo empresário Peter Thiel, conhecido por sua participação na fundação do PayPal e da Palantir.
A operação colocou a avaliação da startup próxima de US$ 1 bilhão e chamou a atenção do setor de tecnologia.
Mais do que uma aposta financeira, o projeto revela um problema crescente: como alimentar a infraestrutura de inteligência artificial sem ampliar excessivamente o consumo de combustíveis fósseis, água e recursos naturais?
Por que a inteligência artificial precisa de tanta energia?
Embora pareça existir apenas em aplicativos e serviços digitais, a inteligência artificial depende de uma infraestrutura física gigantesca.
Cada solicitação enviada a um sistema de IA precisa ser processada por computadores instalados em centros de dados, também chamados de data centers.
Essas instalações reúnem servidores, processadores especializados, equipamentos de comunicação e sistemas de refrigeração.
Além disso, precisam funcionar continuamente e manter temperaturas adequadas para evitar falhas.
O avanço da IA generativa aumentou a demanda por capacidade computacional, especialmente com a expansão de modelos capazes de produzir textos, imagens, vídeos e outros conteúdos.
Segundo o relatório Key Questions on Energy and AI, da Agência Internacional de Energia (IEA), os data centers consumiram aproximadamente 485 terawatts-hora (TWh) de eletricidade em 2025.
A agência projeta que esse consumo poderá chegar a cerca de 950 TWh em 2030, equivalente a aproximadamente 3% da demanda global de eletricidade.
É importante destacar que esses números abrangem os data centers em geral, e não exclusivamente o uso de inteligência artificial.
Entretanto, a IA representa um dos principais motores do crescimento previsto.
O desafio envolve não apenas produzir mais eletricidade, mas encontrar fontes energéticas, infraestrutura e sistemas de refrigeração capazes de acompanhar essa expansão.
Como funciona um data center movido pelas ondas do oceano?

A proposta da Panthalassa parte de uma ideia incomum: em vez de transportar eletricidade até os computadores, levar os computadores até onde existe energia disponível.
O projeto utiliza estruturas flutuantes chamadas de nodes, ou módulos.
Sua nova geração, denominada Ocean-3, foi projetada para operar em regiões oceânicas com ondas de grande potencial energético.
Cada unidade possui aproximadamente 85 metros de comprimento e permanece em grande parte submersa.
Na superfície, uma estrutura flutuante acompanha o movimento das ondas. Abaixo dela, um conjunto de componentes transforma esse movimento em energia mecânica.
Conforme a unidade sobe e desce, a água movimentada pelo sistema passa por uma turbina conectada a um gerador.
A eletricidade produzida abasteceria os equipamentos de inteligência artificial instalados dentro da própria estrutura.
Assim, a plataforma não precisaria enviar sua energia para uma rede elétrica terrestre.
Energia das ondas: o que é e como funciona?
A energia das ondas, também chamada de energia undimotriz, aproveita a movimentação da superfície do mar para gerar eletricidade.
As ondas são formadas principalmente pela transferência de energia dos ventos para a água.
Consequentemente, o oceano funciona como um enorme reservatório de energia mecânica em movimento.
Diferentes tecnologias podem transformar essa energia em eletricidade.
Algumas utilizam boias que sobem e descem. Outras trabalham com estruturas articuladas, sistemas hidráulicos ou dispositivos que movimentam turbinas.
A Panthalassa desenvolve um sistema próprio baseado na movimentação da água através de componentes internos.
Essa abordagem busca simplificar a mecânica e reduzir a quantidade de peças expostas ao ambiente marinho.
Entretanto, a energia das ondas ainda enfrenta dificuldades para alcançar escala comercial competitiva.
O ambiente oceânico apresenta condições severas, incluindo corrosão, tempestades e esforços mecânicos contínuos.
Portanto, transformar a proposta em uma operação confiável exige mais do que demonstrar a produção de eletricidade durante testes.
A energia das ondas já despertava interesse das empresas de tecnologia
A utilização do movimento do mar como fonte de energia renovável não começou com a Panthalassa.
Há anos, universidades, empresas e instituições públicas desenvolvem projetos para aproveitar o potencial energético dos oceanos.
O próprio Eco4Planet registrou esse interesse em 2017, na reportagem “Apple anuncia planos de fabricar todos os seus produtos com materiais reciclados”.
Na época, a publicação também mencionava investimentos da Apple em pesquisas para gerar eletricidade a partir das ondas do mar.
Quase uma década depois, a Panthalassa apresenta uma abordagem diferente.
Em vez de produzir energia oceânica para enviá-la à costa, a empresa pretende utilizar a eletricidade diretamente no local onde ela é gerada.
Essa mudança pode reduzir a necessidade de cabos submarinos de transmissão elétrica, mas cria novos desafios relacionados à manutenção e à comunicação dos equipamentos.
Por que colocar os computadores no meio do oceano?
Nos data centers convencionais, a disponibilidade de eletricidade é um dos fatores mais importantes para escolher onde construir uma instalação.
Além disso, grandes projetos precisam considerar o acesso à água, a infraestrutura de telecomunicações, a disponibilidade de terrenos e os prazos de conexão à rede elétrica.
A Panthalassa pretende contornar parte dessas limitações levando sua infraestrutura para o oceano.
Nesse modelo, os servidores ficam próximos da fonte energética e utilizam a eletricidade produzida pelas próprias ondas.
A empresa afirma que suas unidades poderão operar sem cabos de alimentação conectados ao continente e sem sistemas convencionais de ancoragem no fundo do mar.
Entretanto, essa autonomia precisa ser demonstrada em condições operacionais prolongadas.
Além disso, os módulos precisam apresentar estabilidade suficiente para manter computadores funcionando em um ambiente sujeito a movimentos contínuos.
Os computadores enviariam respostas por satélite
Uma das características mais interessantes do projeto envolve a transmissão dos dados.
Em vez de transportar eletricidade até a costa, as plataformas processariam determinadas tarefas de inteligência artificial no próprio oceano.
Depois, enviariam os resultados por uma conexão de satélites de órbita terrestre baixa, utilizando a rede Starlink, da SpaceX.
O sistema foi concebido principalmente para atividades de inferência, isto é, a execução de modelos de inteligência artificial já desenvolvidos.
Por exemplo, quando uma aplicação envia uma pergunta a um modelo, os equipamentos precisam processar os dados e produzir uma resposta.
Parte desse trabalho poderia ocorrer dentro de módulos oceânicos.
Entretanto, nem todas as aplicações possuem as mesmas necessidades.
O treinamento de modelos de grande porte, a transferência de enormes conjuntos de dados e os serviços que exigem latência extremamente baixa podem apresentar dificuldades adicionais.
Por isso, a comunicação por satélite representa uma solução interessante para determinadas operações, mas ainda precisa provar sua eficiência comercial em diferentes cenários.
Água do mar também poderia resfriar os servidores
A refrigeração representa outro desafio importante para os data centers.
Equipamentos de computação de alta performance produzem calor durante o funcionamento.
Se esse calor não for removido adequadamente, os processadores podem reduzir seu desempenho ou apresentar falhas.
Em instalações terrestres, os sistemas de refrigeração podem utilizar diferentes tecnologias, incluindo resfriamento a ar e sistemas líquidos.
Dependendo da configuração, essas soluções também podem consumir volumes significativos de água.
A Panthalassa pretende aproveitar a temperatura da água oceânica para retirar calor dos equipamentos.
O objetivo é reduzir a necessidade de sistemas convencionais de refrigeração e evitar a dependência de água doce para essa finalidade.
Entretanto, utilizar o oceano como fonte de resfriamento não elimina automaticamente os impactos ambientais.
O calor retirado dos servidores precisa ser transferido para algum lugar.
Por isso, seria necessário avaliar aspectos como temperatura da água, dispersão térmica e possíveis efeitos sobre organismos marinhos.
A eficiência real dependerá do projeto definitivo e dos resultados de operação.
O projeto pode tornar a inteligência artificial mais sustentável?
A principal promessa é reduzir a dependência de eletricidade produzida a partir de combustíveis fósseis.
Como a energia seria gerada pelo movimento das ondas, o sistema não precisaria queimar combustível durante a conversão energética normal.
Além disso, a empresa pretende reduzir a ocupação de terrenos e utilizar o oceano para resfriar os equipamentos.
Entretanto, classificar uma tecnologia como sustentável exige analisar todo o seu ciclo de vida.
A fabricação de grandes estruturas metálicas, a produção dos chips, o transporte dos equipamentos e a manutenção no mar também provocam impactos ambientais.
O aço, por exemplo, exige processos industriais que podem produzir emissões significativas de gases de efeito estufa.
Os processadores utilizados em inteligência artificial também dependem de cadeias industriais complexas, materiais especializados e consumo energético durante sua fabricação.
Portanto, mesmo que a geração elétrica não produza emissões diretas de combustão, isso não significa que o sistema inteiro tenha impacto climático zero.
A avaliação ambiental precisará considerar fabricação, operação, manutenção, substituição de equipamentos e descarte.
Quais vantagens o projeto pretende oferecer?
| Característica | Benefício esperado | O que ainda precisa ser comprovado |
|---|---|---|
| Energia das ondas | Menor dependência de combustíveis fósseis | Custo e geração estável ao longo do tempo |
| Operação em alto-mar | Menor pressão sobre terrenos e redes elétricas locais | Segurança, localização e logística |
| Resfriamento oceânico | Menor necessidade de água doce | Eficiência e impactos térmicos |
| Comunicação por satélite | Processamento remoto sem cabo de dados terrestre | Latência, capacidade e confiabilidade |
| Estruturas modulares | Possibilidade de expansão gradual | Produção e manutenção em escala |
Essas vantagens representam os objetivos do projeto, não resultados ambientais já demonstrados em uma operação comercial de grande escala.
E os impactos sobre a vida marinha?
Uma instalação flutuante no oceano também precisa ser avaliada do ponto de vista ecológico.
Estruturas de grande porte podem interagir com animais marinhos, alterar condições locais e produzir ruídos durante a operação.
Além disso, atividades de transporte, instalação e manutenção podem aumentar a circulação de embarcações em determinadas áreas.
Segundo o Pacific Northwest National Laboratory, dos Estados Unidos, tecnologias de energia marinha exigem estudos específicos sobre possíveis efeitos em peixes, mamíferos marinhos, aves e habitats.
Entre os aspectos investigados estão alterações de comportamento, ruído submarino e mudanças nas características físicas dos ambientes.
Entretanto, os riscos variam conforme o desenho de cada equipamento.
Por exemplo, a proposta da Panthalassa não depende de grandes sistemas convencionais de ancoragem e cabos de transmissão de energia até a costa, o que pode eliminar algumas fontes de impacto presentes em outros projetos.
Por outro lado, a instalação de grandes estruturas móveis em alto-mar traz questões próprias que precisam de monitoramento.
A conservação dos oceanos não pode ficar em segundo plano
O avanço de novas tecnologias oceânicas acontece em um momento de crescente preocupação com a biodiversidade marinha.
A elevação das temperaturas, a poluição e a exploração excessiva de recursos já pressionam diferentes ecossistemas.
O Eco4Planet abordou parte desse cenário na reportagem “Recifes de coral: 96% dos ecossistemas de águas rasas podem entrar em colapso até 2075”.
Embora as plataformas da Panthalassa sejam planejadas para águas profundas e distantes da costa, o princípio ambiental continua relevante.
A expansão de qualquer infraestrutura oceânica precisa considerar as características dos habitats, os impactos acumulados e os efeitos sobre diferentes espécies.
Assim, produzir energia renovável não pode significar transferir pressões ambientais de um ecossistema para outro.
Panthalassa recebeu US$ 140 milhões para desenvolver a tecnologia
Em 4 de maio de 2026, a Panthalassa anunciou uma rodada Série B de financiamento de US$ 140 milhões.
O investimento foi liderado por Peter Thiel e reuniu outros participantes importantes do setor de tecnologia, incluindo iniciativas associadas a John Doerr, Marc Benioff e Max Levchin.
Segundo o comunicado oficial da empresa, o dinheiro seria destinado à conclusão de uma instalação piloto de fabricação próxima a Portland e ao desenvolvimento de módulos Ocean-3.
O interesse dos investidores ajudou a colocar a avaliação da companhia próxima de US$ 1 bilhão.
Entretanto, avaliação de mercado não deve ser confundida com faturamento, lucro ou comprovação de viabilidade da tecnologia.
Em agosto de 2026, a empresa também recebeu investimento da companhia sul-coreana Naver, ampliando sua relação com o setor de computação e serviços digitais.
A expectativa divulgada pela Panthalassa era realizar testes com módulos Ocean-3 e avançar rumo à comercialização em 2027.
Porém, a operação comercial em escala e seus resultados ambientais ainda dependem de validação.
A tecnologia já funciona ou ainda é experimental?
A Panthalassa não começou seus projetos em 2026.
A companhia passou aproximadamente uma década desenvolvendo tecnologias relacionadas à geração de energia oceânica, autonomia de navegação e computação embarcada.
Segundo a empresa, protótipos anteriores, incluindo Ocean-1, Ocean-2 e Wavehopper, foram utilizados para validar componentes do sistema.
Essas experiências representam avanços de engenharia.
Entretanto, é importante diferenciar um protótipo capaz de demonstrar determinadas funções de uma rede comercial de data centers operando continuamente no oceano.
Para alcançar esse estágio, a tecnologia precisará demonstrar estabilidade elétrica, segurança, resistência à corrosão, disponibilidade computacional e custos competitivos.
Também será necessário avaliar a viabilidade econômica das operações de manutenção e substituição de equipamentos.
Portanto, a Panthalassa representa uma proposta real de engenharia, mas suas promessas mais ambiciosas permanecem em fase de desenvolvimento.
O Brasil poderia aproveitar a energia das ondas para alimentar tecnologia?
O Brasil possui um litoral extenso e diferentes regiões com potencial para o aproveitamento de energia oceânica.
Entretanto, a viabilidade depende das condições das ondas, da profundidade, da distância até a costa e da infraestrutura disponível.
Além disso, seria necessário considerar questões ambientais, econômicas e regulatórias.
O país já possui experiências e pesquisas relacionadas à energia oceânica, mas o desenvolvimento em escala comercial continua limitado.
Uma abordagem semelhante à da Panthalassa poderia despertar interesse em instalações remotas que necessitam de energia e processamento computacional.
Entretanto, não seria correto afirmar que o Brasil está pronto para receber uma rede de data centers flutuantes.
Antes disso, seriam necessários estudos técnicos, projetos demonstrativos e avaliações ambientais.
A ideia também precisa ser comparada com alternativas terrestres, como a contratação de energia renovável, o uso de sistemas eficientes de refrigeração e a instalação de data centers em regiões com infraestrutura energética adequada.
O futuro da IA pode estar no oceano?
A proposta da Panthalassa transforma uma questão tradicional da infraestrutura digital.
Durante décadas, empresas construíram centros de dados em locais onde conseguiam obter eletricidade, conectividade e refrigeração.
Agora, uma startup quer inverter essa lógica: levar os computadores para perto de uma fonte renovável de energia.
A combinação entre engenharia oceânica, computação e comunicação por satélite abre possibilidades interessantes.
Entretanto, o sucesso da ideia depende de fatores que vão muito além de instalar servidores em estruturas flutuantes.
Será necessário comprovar geração elétrica confiável, processamento eficiente, custos competitivos e impactos ambientais aceitáveis.
Se conseguir superar esses obstáculos, a Panthalassa poderá ajudar a ampliar as alternativas de infraestrutura energética para a inteligência artificial.
Caso contrário, ainda poderá contribuir com conhecimentos úteis para o desenvolvimento de tecnologias de geração de energia oceânica.
A pergunta não é apenas se conseguimos colocar computadores no meio do mar. É se fazer isso pode ser realmente melhor para o planeta.
E essa resposta só virá quando a tecnologia demonstrar seus resultados fora dos laboratórios, em operação contínua e sob avaliação independente.
Perguntas frequentes
O que é a Panthalassa?
É uma empresa americana de tecnologia oceânica que desenvolve sistemas flutuantes para gerar eletricidade a partir das ondas e utilizá-la em processamento de inteligência artificial.
Como a energia das ondas pode alimentar um data center?
O movimento das ondas aciona um mecanismo que movimenta água através de uma turbina, gerando eletricidade para os equipamentos instalados na estrutura.
Os data centers da Panthalassa já operam comercialmente?
A empresa possui protótipos e anunciou planos de testes e expansão. A comercialização de sua nova geração de módulos foi projetada para 2027, sem comprovação de operação comercial em escala nesta apuração.
Os servidores utilizariam água do mar para refrigeração?
Sim. A proposta aproveita o ambiente oceânico para remover calor dos equipamentos, reduzindo a necessidade de sistemas convencionais e de água doce.
Os data centers ficariam conectados à terra?
Segundo o projeto, não precisariam de cabos elétricos até o continente. A transmissão de informações seria feita por satélites.
A tecnologia é totalmente sustentável?
Ainda não é possível afirmar. Embora a geração pelas ondas possa reduzir emissões operacionais, a avaliação precisa considerar fabricação, manutenção, logística, materiais e impactos sobre os ecossistemas marinhos.



