Brasil deixa de valorizar energias renováveis, afirma pesquisador

Expansão da energia da biomassa acompanha o crescimento da produção da moagem da cana
Expansão da energia da biomassa acompanha o crescimento da produção da moagem da cana./Foto: YoungBlog

As energias renováveis, especialmente a biomassa e a eólica, deixam de ser devidamente valorizadas pelo modelo energético brasileiro. A afirmação é do professor-doutor Nivalde J. de Castro, coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Gesel/UFRJ).

Estudo elaborado pelo Gesel mostra que daqui para a frente, à medida em que as grandes usinas hidrelétricas entrarem em operação, entre as quais as usinas de Jirau, Santo Antonio e Belo Monte (na região do Rio Madeira, em Rondônia), o risco hidrológico brasileiro será ampliado, uma vez que essas usinas são de fio d’água, ou seja, não dispõem de reservatórios.

“Elas vão gerar muita energia enquanto chove e muito pouca no período da seca”, observou o especialista. Isso significa que no período de seca, que se estende de abril até novembro, o Brasil poderá precisar de usinas termelétricas e de energias renováveis.

Para Nivalde de Castro (com o microfone) o país precisa investir mais em biomassa e energia eólica
Nivalde de Castro (à esq.) recomenda o uso de biomassa e energia eólica/Foto: Divulgação/Gesel

Do ponto de vista do Gesel, as energias mais recomendadas nessa situação de escassez de água são a biomassa e a eólica. Nivalde de Castro esclareceu que não há possibilidade de o país sofrer um novo apagão. “Mas, corre o risco de ter energia muito cara no período seco porque, em vez de usar a biomassa ou [a energia] eólica, cujo custo variável é zero, você vai despachar usinas termelétricas, cujo custo variável é muito alto”, ponderou.

Segundo Castro, as regras vigentes nos atuais leilões de energia “não estão valorizando a importância dessas duas energias [a biomassa e a energia eólica]”. Ele esclareceu que, aparentemente, uma termelétrica de biomassa poderia ter a energia paga mais cara. “No fundo, porém, ela é uma energia que economiza reservatório a um preço muito mais barato do que a termelétrica a óleo”.

Castro afirmou que a usina de biomassa pode ser colocada no sistema rapidamente, porque se trata de um derivado da produção de açúcar e álcool, da qual o Brasil é uma potência mundial. No caso da fonte eólica, ele lembrou que o país tem um espaço “gigantesco” onde pode aproveitar esses recursos. “E isso não está sendo levado em conta nas regras do leilão”, complementou.

Foto aérea do local onde a Usina hidrelétrica de Santo Antônio está sendo construída
Região do Rio Madeira, em Porto Velho (RO), onde a Usina Hidrelétrica de Santo Antônio está sendo construída/Foto: Divulgação

Ele defendeu que sejam feitas algumas alterações nessas regras. A mais importante, a curto prazo, seria realizar leilões específicos para cada fonte de energia, em vez dos eventos genéricos, como são realizados hoje. Outra sugestão é fazer leilões “locacionais”, que identifiquem as regiões onde a energia pode ser produzida a um custo mais baixo. Em São Paulo, por exemplo, pode ser gerada grande quantidade de energia a partir da biomassa, porque existem muitas usinas e não há necessidade de gastos adicionais com linhas de transmissão.

“Eu acho que alterações desse tipo são simples de ser feitas e trariam uma segurança para o setor elétrico brasileiro muito grande no futuro”. A projeção é de que ao final deste ano, a energia gerada a partir do bagaço de cana alcance 4.500 megawatts (MW) de potência instalada no Brasil. Ao se considerar a estimativa de 1,038 bilhão de toneladas de cana para a safra 2020/2021, o potencial de geração de energia nesse período será de 14.379 MW médios, revela o estudo coordenado pelo Gesel.

Castro explicou que a expansão da energia da biomassa acompanha o crescimento da produção da moagem da cana. A tendência é de aumentar a quantidade de bagaço da cana e de palha, devido à proibição crescente da queima. Em relação à energia eólica, a potência instalada é de 417 MW. Outros 442 MW estão em construção, indica o estudo.

O coordenador do Gesel afirmou que as energias alternativas e renováveis são muito importantes para o Brasil, na medida em que podem manter a matriz energética do país distante das emissões de gás carbônico.

*Via EcoDesenvolvimento.

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