Expedição no Atlântico Sul revela 31 espécies marinhas potencialmente novas para a ciência

Organismo marinho de corpo transparente iluminado por um laser vermelho durante pesquisa científica nas profundezas do oceano.
Sistema de laser ilumina um organismo marinho durante uma pesquisa sobre a biodiversidade das profundezas do Atlântico Sul.

Uma expedição científica realizada próximo à costa brasileira identificou 31 espécies marinhas potencialmente novas, incluindo águas-vivas, vermes transparentes e organismos capazes de produzir luz. A descoberta revela o quanto ainda desconhecemos sobre a biodiversidade das profundezas do oceano.

Imagine explorar uma região do planeta onde a luz solar praticamente desaparece, a pressão aumenta a cada metro de profundidade e criaturas transparentes flutuam silenciosamente na escuridão.

Foi nesse ambiente que uma equipe internacional de cientistas encontrou 31 espécies marinhas potencialmente novas para a ciência durante uma expedição no Atlântico Sul, em abril de 2026.

A descoberta aconteceu em águas internacionais próximas ao litoral do Nordeste brasileiro, durante a missão Designing the Future 3, organizada pelo Schmidt Ocean Institute.

Durante duas semanas, aproximadamente 30 pesquisadores investigaram a biodiversidade da coluna d’água entre 200 e 1.200 metros de profundidade.

Para isso, utilizaram robôs submarinos, sistemas de escaneamento tridimensional, lasers e ferramentas de análise genética.

O resultado surpreendeu a equipe: águas-vivas desconhecidas, sifonóforos, ctenóforos, pequenos crustáceos e até organismos unicelulares gigantes.

Entretanto, a importância da descoberta vai além das criaturas de aparência incomum. A pesquisa ajuda a compreender o funcionamento de um dos maiores e menos conhecidos ecossistemas da Terra.

Onde foram descobertas as 31 espécies marinhas?

A expedição ocorreu no Atlântico Sul tropical, em uma região oceânica situada entre as latitudes de Salvador, na Bahia, e Fortaleza, no Ceará.

Os pesquisadores navegaram a bordo do Falkor (too), embarcação científica equipada para realizar investigações oceanográficas avançadas.

Segundo informações apresentadas pela Revista Pesquisa FAPESP, a equipe investigou uma região situada aproximadamente entre 160 e 480 quilômetros da costa.

A missão recebeu o nome de Designing the Future 3 e contou com cientistas de diferentes instituições internacionais e brasileiras.

A coordenação científica ficou sob responsabilidade da bióloga marinha Karen Osborn, pesquisadora do Museu Nacional de História Natural do Smithsonian Institution, nos Estados Unidos.

Também participaram pesquisadores vinculados a instituições brasileiras, incluindo a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Federal do Rio Grande (Furg).

O que existe entre 200 e 1.200 metros de profundidade?

Essa faixa reúne partes das zonas mesopelágica e batipelágica, regiões onde a quantidade de luz solar diminui drasticamente.

A zona mesopelágica, geralmente situada entre 200 e 1.000 metros, também recebe o nome de zona crepuscular.

Nela, a luminosidade é insuficiente para sustentar a fotossíntese na maior parte da região.

Além disso, as temperaturas costumam ser baixas e a pressão aumenta significativamente.

Apesar dessas condições, inúmeros organismos habitam essas águas.

Entre eles estão animais gelatinosos, crustáceos, peixes e seres microscópicos adaptados à baixa luminosidade.

Muitos desenvolveram corpos transparentes, estruturas delicadas e mecanismos próprios de produção de luz.

Quais são as 31 espécies potencialmente descobertas?

A equipe identificou representantes de sete grupos de organismos marinhos.

A lista inclui animais relativamente conhecidos, como águas-vivas, e outros que raramente aparecem fora de publicações científicas.

GrupoEspécies potencialmente novasCaracterísticas
Águas-vivas9Animais gelatinosos com tentáculos
Sifonóforos7Organismos coloniais formados por unidades especializadas
Ctenóforos7Animais transparentes que nadam com fileiras de cílios
Larváceos4Pequenos cordados que constroem estruturas de muco
Rizários gigantes2Organismos unicelulares visíveis a olho nu
Anfípodes1Pequenos crustáceos marinhos
Vermes do gênero Tomopteris1Animais de corpo delicado que nadam na coluna d’água
Total31Identificações preliminares

A relação consta no comunicado oficial da expedição divulgado pelo Schmidt Ocean Institute, em junho de 2026.

Embora os cientistas tenham reunido evidências de que esses organismos representam espécies desconhecidas, a confirmação definitiva depende de estudos taxonômicos e publicações científicas.

Águas-vivas e sifonóforos surpreenderam os pesquisadores

Entre os organismos encontrados estão águas-vivas de diferentes formas e tamanhos.

Algumas possuem corpos praticamente transparentes. Outras apresentam estruturas complexas, com tentáculos especializados na captura de presas.

Os sifonóforos também chamaram a atenção.

Embora possam lembrar águas-vivas individuais, esses animais são colônias formadas por unidades chamadas zooides.

Cada unidade desempenha funções específicas, como alimentação, reprodução ou locomoção.

Consequentemente, a colônia funciona como um sistema biológico altamente integrado.

A equipe registrou um sifonóforo a aproximadamente 350 metros de profundidade utilizando um sistema de escaneamento tridimensional.

As imagens permitiram analisar sua estrutura sem depender exclusivamente da retirada do animal da água.

Vermes transparentes e organismos que parecem de outro planeta

Outra descoberta envolve um verme do gênero Tomopteris, conhecido em inglês como gossamer worm.

Esses animais apresentam corpos alongados, delicados e praticamente transparentes.

Além disso, alguns representantes do grupo possuem capacidade de produzir luz por meio de reações químicas.

A equipe também observou larváceos, pequenos organismos que constroem estruturas gelatinosas de muco para filtrar partículas alimentares.

Essas estruturas funcionam como uma espécie de residência temporária.

Apesar da aparência simples, os larváceos pertencem ao grupo dos cordados, que também inclui os vertebrados.

Portanto, possuem uma relação evolutiva mais próxima conosco do que águas-vivas e outros invertebrados.

Como os cientistas encontraram animais tão delicados?

Pesquisadora manuseia equipamento de coleta de amostras de um robô submarino utilizado em expedições científicas para estudar a biodiversidade marinha.
Pesquisadora prepara equipamentos de coleta de amostras de um veículo submarino utilizado na exploração da biodiversidade do oceano profundo.

Um dos maiores desafios da oceanografia consiste em estudar organismos gelatinosos sem danificá-los.

Muitos animais do oceano profundo possuem corpos frágeis e não resistem bem aos métodos tradicionais de coleta.

Redes, mudanças de pressão e transporte até a superfície podem alterar suas estruturas.

Por isso, a expedição utilizou tecnologias que permitem observar os organismos diretamente no ambiente marinho.

O principal equipamento foi o SuBastian, veículo operado remotamente que transporta câmeras, sensores e instrumentos científicos.

Lasers criaram modelos tridimensionais dos animais

Dois sistemas tiveram papel importante na pesquisa: DeepPIV e EyeRIS.

Pesquisadores do Monterey Bay Aquarium Research Institute (MBARI) desenvolveram essas tecnologias para estudar a vida marinha com maior precisão.

O DeepPIV utiliza lasers e técnicas ópticas para analisar o movimento da água e reconstruir a forma tridimensional de organismos transparentes.

Já o EyeRIS registra a geometria externa de animais com estruturas menos transparentes.

Dessa forma, os cientistas conseguem estudar detalhes anatômicos que métodos convencionais dificilmente preservariam.

Além disso, a equipe utilizou uma câmera do tipo shadowgraph, capaz de revelar estruturas por meio das sombras produzidas pelos organismos.

Essas ferramentas ampliam o conhecimento científico sem exigir a captura de todos os animais observados.

Microscópio permitiu observar células vivas em 3D

Outra inovação veio de um microscópio desenvolvido por pesquisadores da Universidade Stanford.

Conhecido como Squid, o instrumento permitiu observar estruturas celulares internas de organismos vivos em três dimensões durante a própria expedição.

A equipe aplicou a tecnologia ao estudo de um protista gigante, organismo unicelular com uma estrutura biológica complexa.

Segundo o Schmidt Ocean Institute, o procedimento representou um avanço inédito para pesquisas embarcadas.

Além disso, os pesquisadores realizaram análises genéticas diretamente no navio.

Essa combinação de imagens e sequenciamento de DNA acelerou a identificação preliminar das espécies.

Por que o oceano profundo ainda esconde tantas espécies?

Apesar dos avanços tecnológicos, grande parte do ambiente oceânico permanece pouco estudada.

A dificuldade de acesso representa um dos principais obstáculos.

Enquanto pesquisadores conseguem observar muitos ecossistemas terrestres diretamente, estudar animais a centenas de metros abaixo da superfície exige embarcações especializadas e equipamentos caros.

Além disso, os oceanos cobrem aproximadamente 71% da superfície terrestre.

Sua enorme extensão e profundidade tornam impossível investigar todas as regiões com a mesma intensidade.

O Atlântico Sul, em particular, ainda apresenta importantes lacunas de conhecimento sobre os organismos que vivem longe da costa e do fundo marinho.

Por isso, expedições como Designing the Future 3 ajudam a revelar uma biodiversidade que permaneceu fora do alcance das ferramentas científicas tradicionais.

Encontrar uma espécie nova não significa que ela acabou de surgir

É importante compreender a diferença entre descobrir uma espécie e seu surgimento na natureza.

Os animais identificados durante a expedição provavelmente habitam essas águas há muito tempo.

Entretanto, a ciência ainda não havia documentado formalmente sua existência.

Para reconhecer oficialmente uma nova espécie, os pesquisadores precisam comparar suas características com espécies já conhecidas.

Também podem utilizar análises de DNA, estudos anatômicos e outras evidências.

Posteriormente, devem publicar uma descrição científica válida, com as informações necessárias para identificar o organismo.

Assim, os 31 registros representam descobertas potencialmente novas, e não 31 espécies que tenham surgido recentemente no oceano.

Animais das profundezas ajudam a regular o clima do planeta

A biodiversidade da coluna d’água também desempenha funções importantes no ciclo global do carbono.

Muitos organismos marinhos realizam um movimento conhecido como migração vertical diária.

Durante a noite, sobem para regiões mais próximas da superfície em busca de alimento.

Ao amanhecer, retornam às águas profundas.

Esse comportamento envolve enormes quantidades de organismos e representa um dos maiores movimentos coletivos de biomassa animal do planeta.

Durante o processo, os animais transportam matéria orgânica e carbono entre diferentes camadas do oceano.

Parte desse carbono chega a regiões profundas por meio da respiração, da excreção e das interações alimentares.

Consequentemente, o fenômeno contribui para a chamada bomba biológica de carbono, um conjunto de processos que ajuda a retirar carbono das águas superficiais e transportá-lo para maiores profundidades.

Compreender esses mecanismos é importante para melhorar o conhecimento científico sobre a relação entre oceanos e clima.

A biodiversidade desconhecida também enfrenta ameaças ambientais

Embora o oceano profundo pareça distante das atividades humanas, ele também sofre pressões ambientais.

O aquecimento das águas, a acidificação, a poluição e as mudanças na disponibilidade de oxigênio podem afetar diferentes ecossistemas marinhos.

Além disso, plásticos e outros contaminantes conseguem alcançar grandes profundidades.

Essas ameaças preocupam pesquisadores porque muitas espécies ainda não possuem informações suficientes sobre distribuição, população e vulnerabilidade ambiental.

Em alguns casos, a ciência pode desconhecer completamente organismos que desempenham funções importantes nas cadeias alimentares.

Por isso, descobrir e estudar novas espécies representa uma etapa essencial para avaliar riscos e desenvolver políticas de conservação.

Entretanto, não é possível afirmar que todos os organismos identificados nesta expedição estejam ameaçados de extinção. Essa avaliação exige dados específicos.

O que a descoberta de 31 espécies revela sobre a vida no planeta?

A expedição no Atlântico Sul demonstra que a biodiversidade marinha ainda guarda inúmeras perguntas sem resposta.

Em apenas duas semanas, uma equipe internacional identificou 31 espécies potencialmente desconhecidas e registrou comportamentos e estruturas biológicas pouco documentados.

Mais do que ampliar uma lista de animais, os pesquisadores desenvolveram novas maneiras de observar a vida em ambientes extremos.

As tecnologias utilizadas também poderão contribuir para futuras investigações sobre fisiologia, evolução e ecologia marinha.

Além disso, a participação de instituições brasileiras reforça a importância da cooperação científica para estudar os oceanos.

O resultado apresenta uma mensagem importante para a conservação ambiental.

Ainda conhecemos apenas parte da biodiversidade que existe no planeta.

Portanto, proteger os ecossistemas marinhos também significa preservar organismos, relações ecológicas e processos naturais que a ciência ainda está começando a compreender.

A descoberta dessas 31 espécies potenciais não encerra uma investigação. Pelo contrário: abre novas possibilidades para conhecer a vida nas profundezas do Atlântico e entender melhor o papel dos oceanos no equilíbrio da Terra.

Perguntas frequentes

Quantas espécies foram identificadas na expedição?

A equipe identificou 31 espécies potencialmente novas para a ciência. A descrição taxonômica definitiva ainda depende de novos estudos.

Onde aconteceu a descoberta?

A expedição ocorreu no Atlântico Sul tropical, em águas internacionais próximas ao litoral nordestino brasileiro, entre as latitudes de Salvador e Fortaleza.

Quais animais foram encontrados?

Entre os grupos estão águas-vivas, sifonóforos, ctenóforos, larváceos, rizários gigantes, um anfípode e um verme do gênero Tomopteris.

Qual tecnologia permitiu descobrir esses organismos?

Os pesquisadores utilizaram o robô submarino SuBastian, lasers, câmeras tridimensionais, microscópios especiais e análises genéticas realizadas a bordo.

Por que estudar os animais do oceano profundo é importante?

Esses organismos participam das cadeias alimentares, do transporte de carbono e de processos ecológicos fundamentais para o funcionamento dos oceanos.

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