Pesquisa avalia o uso do carvão vegetal no Brasil

carvao-capa.jpg
O carvão vegetal pode ser até 40% menos poluente que o mineral/Foto: Henrique Vicente

Uma pesquisa desenvolvida na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP avaliou o uso do carvão vegetal no Brasil e seus desdobramentos na economia, sociedade e meio ambiente. Os resultados mostraram que o biocombustível é uma fonte de energia alternativa que não intensifica tanto o aquecimento global e, com o aumento do uso de eucaliptos como biomassa, ajuda a diminuir o processo de desmatamento das florestas brasileiras.

A pesquisa foi o resultado do mestrado do economista Thiago Fonseca Morello, que estudou o uso e alguns problemas do eucalipto como fonte de energia para siderúrgicas. Intitulado Carvão vegetal e siderurgia: de elo perdido a solução para um mundo pós-Kioto, o estudo teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp) e buscou entender de que maneira o carvão vegetal e o uso do eucalipto como fonte de carbono trouxeram soluções para siderúrgicas que passaram a utilizar essa fonte de energia.

Segundo o pesquisador, um dos fatores que permite ao Brasil ser o único país do mundo a utilizar o carvão vegetal em siderúrgicas é a baixa quantidade de jazidas de carvão mineral no país. “Esse fato pode ser uma explicação para a insistência no uso de carvão vegetal. É necessário que as empresas importem o carvão mineral em grande escala, para baratear o preço, e isso tem uma série de implicações logísticas e ambientais. Por outro lado, somos um país rico em florestas e estas acabaram sendo utilizadas como fonte alternativa e mais barata de carbono”, explicou à Agência USP.

Fonte de energia renovável, o carvão vegetal ajuda a reduzir as emissões de CO2 na atmosfera devido à captura do gás carbônico pelas árvores durante o seu crescimento. Dados apontam que essa redução pode chegar a 40% em relação ao carvão mineral – combustível fóssil natural extraído do solo por processos de mineração e altamente poluidor.

carvao-02.jpg
O grande desafio hoje é controlar a devastação de florestas nativas para obtenção do carvão/Foto: Deltafrut

O fantasma do desmatamento

Apesar das vantagens, o uso do carvão vegetal é criticado devido ao desmatamento gerado pela busca por matéria-prima – geralmente em florestas nativas. Nesse quesito a pesquisa aponta que muitas siderúrgicas só passaram a investir no cultivo e manutenção das plantações de eucalipto quando perceberam a exaustão das florestas das quais costumavam retirar seu carvão.

Morello salientou que essa opção das empresas por cultivar sua fonte de carbono trouxe fatores positivos, como a diminuição do desmatamento da floresta, e aspectos negativos, como o aumento das grandes plantações e da concentração de terras.

“Com a opção de plantar eucalipto, as empresas têm vantagens em vários sentidos: em relação à qualidade, pois usam mudas geneticamente adaptadas a cada região, conseguindo assim o melhor rendimento possível. Há benefícios ambientais, pois evita a destruição da floresta a qual desempenha diversas funções ecológicas e também culturais para a comunidade local. Além disso, as indústrias estão, cada vez mais, se esforçando para se desconectar das florestas e do desmatamento, pois assim criam uma imagem mais favorável nacional e internacionalmente”, ressaltou o pesquisador.

Outros problemas apresentados pela pesquisa revelam que hoje já existe uma inversão do relativo de preço da década de 1980, quando o carvão mineral passou a ser mais barato do que o vegetal. Apesar disso, o produto segue em crescimento no mercado, especialmente devido ao seu poder de marketing.

“Um fato atual relevante é o de que as duas maiores siderúrgicas mineiras a carvão vegetal foram compradas pela maior corporação siderúrgica do mundo, a anglo-indiana Mittal Steel, a qual tem o interesse em ter sua imagem associada ao fato de existirem membros de seu grupo que produzem aço com base no carvão vegetal, dado que todos os demais membros dependem pesadamente do carvão mineral”, explicou o economista.

carvao-03.jpg
Com o aumento das cobranças internacionais por medidas que reduzam as emissões de CO2, o uso do carvão vegetal tende a crescer/Foto:
Davipt

Fomento florestal

Um novo modelo de cultivo tem atraído investimentos de siderúrgicas. Trata-se do fomento florestal – uma alternativa ao cultivo de plantação de eucalipto realizado em escala menor àquela dos grandes maciços mantidos pelas siderúrgicas mineiras e que permite a pulverização das áreas de cultivo.

Apesar da siderurgia de carvão vegetal não chegar a 30% da produção de ferro-gusa e a 20% da produção de aço, o interesse das empresas por fontes alternativas de carbono tende a crescer enquanto houver cobranças internacionais relacionadas ao aquecimento global.

“O fomento florestal é interessante e pode ser estudado como uma possível trajetória para produzir ferro e aço de maneira a não intensificar o aquecimento global, mas não acredito que exista potencial para haver uma conversão em massa da siderurgia no mundo e no Brasil para o carvão de eucalipto. Entretanto, enquanto a temática ambiental e ecológica se mantiver relevante internacionalmente, o uso de carvão de eucalipto continuará existindo no Brasil”, conclui.

*Via Agência USP. Via EcoDesenvolvimento

6 respostas a “Pesquisa avalia o uso do carvão vegetal no Brasil”

  1. Avatar de Diego Moreira

    Este post está exemplar. Parabenizo o colaborador Guilherme Costa pela seleção do tema e pela apresentação.

    Creio que a questão do eucalipto é polêmica por conta dos diversos impactos ambientais e sociais que o seu cultivo tende a gerar. Principalmente se cultivado em larga escala por grandes extensões de terra.

    Mas é inegável que para atividades como a siderurgia, essa seria uma solução mais limpa em termos de emissões.

  2. Avatar de Sergio Ulhoa Dani

    Desde que o homem dominou o fogo, há milhares de anos, ele utiliza lenha nativa como fonte de combustível. Não há registro confiável de aquecimento global, poluição ambiental, degradação de solos e extinção de espécies por causa do uso sustentável de vegetação nativa. Lenha nativa manejada é combustível verde. Lenha nativa conserva a biodiversidade. Na Europa, principalmente na Alemanha, país industrializado, o uso de lenha de espécies nativas está mais forte do que nunca, e o país, cuja área é equivalente à do estado de Minas Gerais, hoje tem 30% do seu território coberto com florestas mistas de espécies nativas replantadas e utilizadas para a produção sustentável de madeira e lenha. Eucaliptal não é floresta tropical, é plantação em monocultura que modifica o solo para pior e causa desequilíbrios e instabilidades. Em várias regiões da África, o plantio de eucaliptais em monocultura criou desertos, expulsou pessoas e causou pobreza. Temos trabalhos científicos que mostram a viabilidade econômica, ecológica e social da produção de carvão e lenha em florestas nativas manejadas, principalmente no cerrado. O que destrói o cerrado é sua substituição por monoculturas, corte indiscriminado, utilização excessiva, poluição. Manejo sustentável do cerrado para lenha e carvão vegetal proteje o cerrado e outras tipologias vegetais.

  3. Avatar de Sergio Ulhoa Dani

    É verdade que as indústrias brasileiras plantam eucalipto “para se desconectar das florestas e do desmatamento”, elas nunca gostaram das florestas, e sempre fomentaram o desmatamento e agora querem se safar. Algo assim como “atirar a pedra, quebrar a vidraça e fugir da autoria”. Mas não é verdade que assim “criam uma imagem mais favorável nacional e internacionalmente”. Elas plantam eucalipto agora porque é mais fácil, mais barato, mais lucrativo, mais controlável para elas. Não quiseram investir na pesquisa e extensão do manejo sustentável das nossas florestas, não quiseram políticas de fomento florestal, e preferiram destruir tudo para viabilizar seu sucesso econômico. Assim criaram a dificuldade, e agora vendem a facilidade. No Brasil, essas indústrias conseguiram criar a ilusão de que eucaliptal protege floresta nativa. Essa imagem não corresponde à realidade, mas é defendida com sucesso por alguns lobbies ambientalistas, governantes e políticos alinhados. A verdade é que plantar eucaliptal tornou-se negócio lucrativo para alguns. Na Europa, a população em geral sabe que as monoculturas de eucalipto causam degradação sócio-ambiental. A imagem é muito ruim, mas o negócio ainda é bom. Até quando?

  4. Avatar de Thalita25
    Thalita25

    Bão também!

  5. Avatar de Sergio Ulhoa Dani

    Quando cada agricultor puder fazer o seu carvãozinho vegetal de mata nativa manejada, longe do arrocho das autoridades ambientais e das ONGs radicais, e depois enterrar esse carvão e ainda ser remunerado por isso, teremos resolvido o problema do aquecimento global, e boa parte dos problemas ecológico e social. O carvão vegetal não não sofre oxidação pela atmosfera e não se degrada, portanto é uma ótima solução para sequestrar carbono e reduzir o aquecimento global. Se for de mata nativa, então, melhor ainda, porque não cria os desequilíbrios e instabilidades sócio-ambientais das monoculturas de árvores.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *