
Pesquisas arqueológicas revelam que a relação entre os seres humanos e os atuns começou milhares de anos antes do surgimento das grandes civilizações. Entretanto, a pesca industrial transformou profundamente essa atividade e trouxe novos desafios para a conservação dos oceanos.
O atum está presente na alimentação de milhões de pessoas. Seja em conservas, pratos tradicionais ou preparações sofisticadas da culinária japonesa, esse peixe conquistou um espaço importante no comércio e na gastronomia mundial.
Entretanto, a relação da humanidade com os atuns começou muito antes da existência de restaurantes, supermercados ou embarcações industriais.
Evidências arqueológicas encontradas no Sudeste Asiático indicam que nossos ancestrais capturavam esses predadores marinhos há aproximadamente 44 mil anos.
Essa descoberta revela que populações pré-históricas desenvolveram conhecimentos sobre o comportamento dos peixes, as condições do mar e as técnicas necessárias para explorar ambientes oceânicos.
Além disso, a longa história da pesca de atum ajuda os pesquisadores a compreender como a exploração dos recursos marinhos mudou ao longo do tempo.
O contraste é impressionante: enquanto comunidades antigas utilizavam técnicas de pesca adaptadas às condições locais, a indústria moderna captura milhões de toneladas de atum todos os anos.
Consequentemente, a conservação desses animais se tornou uma questão fundamental para a biodiversidade e o equilíbrio dos oceanos.
Como começou a pesca de atum na pré-história?
Uma das descobertas arqueológicas mais importantes sobre a pesca oceânica ocorreu em Timor-Leste, no Sudeste Asiático.
No abrigo rochoso de Jerimalai, pesquisadores encontraram restos de peixes que revelam atividades de pesca realizadas por populações humanas há dezenas de milhares de anos.
Em 2011, os arqueólogos Sue O’Connor, Rintaro Ono e Chris Clarkson publicaram um estudo na revista científica Science, apresentando evidências de pesca de espécies pelágicas com aproximadamente 42 mil anos.
Os resultados demonstraram que grupos humanos já possuíam habilidades marítimas sofisticadas naquele período.
O estudo original, disponível no repositório da Australian National University, também apresentou evidências antigas da fabricação de anzóis.
Pesquisas posteriores ampliaram a análise da relação histórica entre as populações humanas e os atuns, situando algumas das evidências mais antigas em aproximadamente 44 mil anos.
Esses resultados mostram que a exploração de recursos oceânicos possui raízes muito anteriores à agricultura e ao desenvolvimento das sociedades urbanas.
Como os primeiros pescadores conseguiam capturar atuns?
Capturar um atum não é uma tarefa simples.
Esses peixes apresentam grande velocidade, força muscular e capacidade de percorrer longas distâncias.
Além disso, muitas espécies vivem em águas abertas, longe da costa.
Por isso, a presença de seus restos em sítios arqueológicos antigos desperta o interesse dos pesquisadores.
Uma das hipóteses é que as comunidades pré-históricas aproveitavam regiões onde correntes e canais profundos aproximavam os peixes do litoral.
Entretanto, a captura provavelmente exigia planejamento e conhecimento das condições ambientais.
Os primeiros pescadores também podem ter utilizado diferentes técnicas, embora nem todos os equipamentos empregados naquele período tenham sido preservados.
Portanto, os vestígios encontrados em Timor-Leste representam evidências importantes da capacidade humana de explorar ambientes marinhos.
O que torna os atuns tão importantes para os oceanos?
Os atuns pertencem a um grupo de peixes adaptados à vida em águas abertas.
Entre suas características estão corpos hidrodinâmicos, musculatura desenvolvida e grande capacidade de deslocamento.
Algumas espécies percorrem milhares de quilômetros durante suas migrações.
O atum-azul-do-Pacífico, por exemplo, pode atravessar grandes extensões do Oceano Pacífico em busca de alimento e condições adequadas de reprodução.
Além disso, determinadas espécies ultrapassam três metros de comprimento e podem viver por várias décadas.
Essas características fazem dos atuns alguns dos predadores mais impressionantes dos oceanos.
Predadores que ajudam a manter o equilíbrio ecológico
Os atuns se alimentam de diferentes organismos marinhos, incluindo peixes menores, lulas e crustáceos.
Dessa forma, participam das relações alimentares que conectam diferentes níveis dos ecossistemas oceânicos.
A presença desses predadores também contribui para a dinâmica das populações de suas presas.
Entretanto, a redução intensa de populações de atum pode provocar alterações nas relações ecológicas.
Por isso, pesquisadores consideram esses peixes importantes indicadores das condições dos ambientes marinhos.
Compreender sua distribuição, reprodução e abundância ajuda a avaliar os impactos da pesca e das mudanças ambientais.
A pesca de atum também marcou antigas civilizações
Embora Timor-Leste reúna algumas das evidências mais antigas conhecidas, a captura de atuns se desenvolveu em diferentes partes do mundo.
No Japão e na Península Coreana, registros arqueológicos indicam que comunidades humanas já pescavam esses animais há pelo menos sete mil anos.
Além disso, regiões do Mediterrâneo desenvolveram tradições pesqueiras que atravessaram milênios.
Na Grécia, a presença de ossos de atum em sítios arqueológicos revela a importância desses animais para a alimentação de antigas comunidades.
Entre 9 mil e 11 mil anos atrás, por exemplo, pescadores já exploravam recursos marinhos em áreas próximas à Baía de Kiladha.
Posteriormente, o comércio de atum ganhou relevância econômica entre populações mediterrâneas.
O atum na cultura da Grécia Antiga
Para os antigos gregos, o atum possuía importância alimentar, comercial e cultural.
Registros históricos associam esses peixes a práticas religiosas e oferendas destinadas a Poseidon, divindade ligada ao mar.
Além disso, a pesca se tornou uma atividade econômica organizada.
Há aproximadamente três mil anos, comunidades mediterrâneas já utilizavam sistemas especializados para capturar atuns durante suas migrações.
Essas técnicas exploravam a movimentação previsível dos cardumes em determinadas épocas do ano.
Consequentemente, a pesca passou a integrar redes comerciais e atividades econômicas regionais.
Povos indígenas desenvolveram técnicas sofisticadas de pesca
A história da exploração do atum também envolve comunidades indígenas da América do Norte.
Na costa noroeste do continente, povos ligados ao território Nuu-chah-nulth desenvolveram práticas de pesca do atum-azul-do-Pacífico ao longo de milhares de anos.
Essas atividades exigiam conhecimento sobre o ambiente marinho, os ciclos naturais e o comportamento dos cardumes.
Relatos etnográficos descrevem estratégias de pesca noturna que aproveitavam fenômenos como a bioluminescência.
Em determinadas situações, os pescadores utilizavam embarcações e instrumentos de captura para alcançar grandes peixes.
Além disso, a cooperação entre diferentes participantes desempenhava um papel importante nessas atividades.
No sul da Califórnia, outras comunidades indígenas também capturavam diferentes espécies de atum.
Os vestígios encontrados em sítios arqueológicos demonstram que a pesca integrava a alimentação e a cultura dessas populações muito antes da chegada da indústria moderna.
Como a pesca industrial transformou a exploração do atum?
Durante milhares de anos, os seres humanos desenvolveram técnicas adaptadas às condições ambientais e à disponibilidade dos recursos marinhos.
Entretanto, a industrialização alterou profundamente a escala da atividade pesqueira.
Nos séculos XIX e XX, o desenvolvimento de embarcações motorizadas, sistemas de conservação e equipamentos especializados ampliou a capacidade de captura.
Além disso, a expansão do comércio internacional aumentou a demanda por produtos derivados do atum.
As indústrias de conservas também contribuíram para popularizar esse alimento.
Durante as duas guerras mundiais, o consumo de atum ganhou importância devido à facilidade de armazenamento e transporte.
Posteriormente, a expansão dos mercados internacionais consolidou uma indústria pesqueira de grande escala.
Uma atividade econômica que movimenta bilhões
Atualmente, a cadeia global do atum movimenta aproximadamente US$ 40 bilhões por ano, considerando estimativas setoriais citadas na pesquisa histórica.
A atividade envolve embarcações, empresas de processamento, distribuidores e comerciantes.
Entretanto, o aumento da capacidade de captura também ampliou a pressão sobre determinadas populações marinhas.
Enquanto antigas comunidades retiravam quantidades relativamente limitadas de pescado, a indústria moderna captura milhões de toneladas anualmente.
Essa diferença representa uma transformação profunda na relação entre a humanidade e os recursos oceânicos.
A pesca excessiva ameaça algumas espécies de atum
A pesca industrial trouxe avanços na distribuição de alimentos e no desenvolvimento econômico.
Entretanto, também aumentou a necessidade de controlar a exploração dos recursos marinhos.
Algumas espécies de atum apresentam crescimento relativamente lento, maturidade reprodutiva tardia ou longos deslocamentos migratórios.
Essas características podem aumentar sua vulnerabilidade à pesca excessiva.
Entre os grupos que exigem atenção especial estão o atum-azul-do-sul, o atum-azul-do-Pacífico e o atum-patudo.
A situação de conservação varia conforme a espécie, a população e a região analisada.
Por isso, não é correto afirmar que todos os atuns enfrentam o mesmo nível de ameaça.
Em algumas áreas, políticas de controle e recuperação dos estoques pesqueiros produziram resultados positivos.
Entretanto, outros estoques continuam exigindo medidas rigorosas de gestão.
Por que a sobrepesca preocupa os cientistas?
A sobrepesca ocorre quando a retirada de indivíduos compromete a capacidade de uma população de se manter ou se recuperar ao longo do tempo.
Quando isso acontece, a quantidade de peixes disponíveis pode diminuir significativamente.
Além disso, a captura excessiva pode alterar as relações alimentares e a estrutura dos ecossistemas marinhos.
O problema também apresenta consequências econômicas.
Comunidades pesqueiras que dependem desses recursos podem enfrentar dificuldades quando os estoques diminuem.
Consequentemente, a exploração sustentável exige planejamento, fiscalização e acompanhamento científico.
O que a arqueologia ensina sobre a pesca sustentável?
Os registros arqueológicos permitem compreender como a exploração do atum mudou ao longo de milhares de anos.
Além de documentar técnicas antigas, esses vestígios ajudam os pesquisadores a comparar diferentes períodos históricos.
Entretanto, a arqueologia apresenta limitações.
Nem todos os restos de peixes sobrevivem ao tempo, e muitos antigos assentamentos costeiros desapareceram devido às mudanças do nível do mar.
Por isso, os registros disponíveis representam apenas parte da história.
Ainda assim, oferecem informações valiosas sobre a distribuição das atividades pesqueiras e a relação entre comunidades humanas e ambientes marinhos.
Uma análise científica publicada em 2026 por Emma Elliott Smith, Torben Rick e colaboradores reuniu evidências arqueológicas, históricas e etnográficas para investigar essa longa trajetória.
O estudo destaca que a pesca de atum possui uma história muito mais antiga e culturalmente diversa do que normalmente aparece nos debates contemporâneos.
Além disso, reforça a importância de considerar o passado ao desenvolver políticas de conservação.
A ciência pode ajudar a proteger os atuns?
A gestão sustentável da pesca depende de informações confiáveis sobre as populações marinhas.
Para isso, pesquisadores utilizam levantamentos científicos, dados de captura e monitoramento dos estoques.
Essas informações ajudam a definir limites de exploração e avaliar a necessidade de medidas de proteção.
Além disso, a cooperação internacional é fundamental.
Como os atuns percorrem grandes distâncias, uma mesma população pode atravessar águas de diferentes países e regiões oceânicas.
Consequentemente, medidas adotadas isoladamente nem sempre conseguem garantir sua conservação.
Organizações regionais de gestão pesqueira desempenham um papel importante nesse processo.
No Oceano Atlântico, por exemplo, a Comissão Internacional para a Conservação dos Atuns do Atlântico (ICCAT) reúne países que cooperam na pesquisa e na regulamentação da pesca de atuns e espécies relacionadas.
Entre as medidas utilizadas estão limites de captura, monitoramento e avaliações periódicas das populações.
Entretanto, sua eficácia depende do cumprimento das regras e da qualidade das informações disponíveis.
O futuro da pesca de atum depende de decisões sustentáveis

A relação da humanidade com os atuns demonstra uma extraordinária capacidade de adaptação.
Há dezenas de milhares de anos, comunidades pré-históricas já desenvolviam conhecimentos para explorar ambientes oceânicos.
Posteriormente, diferentes civilizações transformaram a pesca em uma atividade alimentar, comercial e cultural.
Entretanto, a exploração industrial ampliou a escala de captura para níveis sem precedentes na história.
Hoje, o principal desafio consiste em conciliar a produção de alimentos com a conservação das populações marinhas.
Para isso, governos, empresas e pesquisadores precisam adotar estratégias baseadas em evidências científicas.
Além disso, consumidores podem contribuir ao buscar informações sobre a procedência dos produtos e as práticas utilizadas em sua captura.
A proteção dos atuns também beneficia as comunidades que dependem economicamente da atividade pesqueira.
Uma história de 44 mil anos que ainda precisa continuar
A pesca de atum revela uma conexão profunda entre os seres humanos e os oceanos.
Os vestígios encontrados em Timor-Leste demonstram que nossos ancestrais já possuíam habilidades marítimas importantes muito antes das primeiras grandes civilizações.
Ao longo dos milênios, diferentes povos aprimoraram técnicas e desenvolveram tradições relacionadas à captura desses peixes.
Entretanto, a exploração contemporânea criou desafios ambientais que exigem novas respostas.
Preservar os atuns significa proteger não apenas uma importante fonte de alimento, mas também predadores que participam do equilíbrio dos ecossistemas marinhos.
A mesma capacidade humana de inovação que permitiu desenvolver técnicas de pesca há milhares de anos pode contribuir para criar formas mais responsáveis de utilizar os recursos oceânicos.
Afinal, garantir o futuro dos atuns também significa preservar uma parte importante da história da humanidade e da vida nos oceanos.
Fontes e referências
- Superinteressante — Viciados em atum: humanidade vem pescando esses predadores marinhos há 44 mil anos (2026)
- Australian National University — Pelagic Fishing at 42,000 Years Before the Present (2011)
- Science — Pesquisa arqueológica de O’Connor, Ono e Clarkson (2011)
- PNAS — Pesquisa histórica sobre a relação humana com os atuns (2026)
- ICCAT — Comissão Internacional para a Conservação dos Atuns do Atlântico



